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O discipulado a partir da ótica joanina

O quarto evangelho foi apelidado de o evangelho espiritual, assim expressou muito bem Clemente de Alexandria, no fim do século II, em seu breve comentário à Escritura (hypotyposeis): “João, por último, vendo que as coisas corporais (ta somatika) tinham sido narradas nos evangelhos, redigiu, instado pelos seus discípulos e divinamente inspirado pelo Espírito, um evangelho espiritual (pneumatikon euangelion)”. Esse epíteto foi reservado ao evangelho de João, é sem dúvida por causa da profundeza do olhar que ele lança sobre o mistério do Cristo. É um evangelho que começa do alto. Para o seu autor não existem outros pontos de partida para falar de Jesus senão este: Em princípio (1,1). Do princípio de tudo e do princípio da luz vinda ao mundo. E este princípio é também o ponto mais alto. Inicia-se assim o vôo desta águia, símbolo extremamente adequado para indicar o narrador teólogo João. Ler este evangelho comporta dois movimentos: voar e caminhar. Voar com a águia João e caminhar com o Verbo – Logos – Jesus, ou então voar com a águia Jesus e caminhar com o discípulo João, tendo sempre como meta seguir o mestre Jesus de Nazaré. Com este intuito, o autor do quarto evangelho, dentre os vários temas da sua teologia aborda o discipulado. Discípulo é uma palavra oriunda do grego - Mathêtês. Este vocábulo que no Novo Testamento aparece 261 vezes, distribuído da seguinte maneira: 72 vezes no evangelho de Mateus, 37 no evangelho de Lucas, 78 no evangelho de João e 28 no livro Atos dos Apóstolos. Como podemos observar nestes dados estatísticos, nos escritos neotestamentários, o quarto evangelho é o que supera todos os demais no emprego deste termo. Mathêtês designa geralmente um aluno que acompanha o mestre para ser instruído por ele; nos Evangelhos sinóticos, porém, essa palavra se refere ao pequeno grupo de discípulos que seguem Jesus. Trata-se de um número pequeno de pessoas; tão pequeno que poderiam caber todos dentro de um barco (Mc 6,45-52), ou fazer reuniões numa casa (Mc 7,17; 9,28). Todavia, o autor do quarto evangelho difere do pensamento dos sinóticos e assim usa este termo em dois sentidos: um estrito e outro mais amplo. Discípulos são em regra geral, os Doze (Jo 6,67. 71; 20,24) que acompanham constantemente Jesus ao longo de seu ministério na Palestina. O mesmo conceito também se aplica ao grupo mais amplo de seguidores de Jesus (6,60-61.66; 7,3; 19,38). Em muitos aspectos, a relação entre Jesus e discípulos era semelhante às relações entre o rabino hebreu e seus discípulos. Apesar desta semelhança há diferenças, pois Jesus pedia uma adesão pessoal mais completa do que aquela que era pedida pelos rabinos. O seu discípulo deveria estar disposto a abandonar pai, mãe, filho, a tomar a sua cruz e a dar a vida no seguimento do mestre (cf. Mt 10,37ss; Lc 14,26ss). Os discípulos de Jesus também diferiam dos discípulos dos rabinos pelo fato que não podiam ter esperança de alcançar alguma promoção, pois seriam discípulos a vida inteira.
São João, na primeira parte do evangelho (1–12), que compreende o livro dos sinais, se limita a mencionar os discípulos em momentos distintos: no relato da vocação, onde o evangelista apresenta uma confissão de fé (1,35-41); em Caná da Galiléia, onde os discípulos viram a Glória de Jesus e nele creram (2,11); no episódio de Samaria, onde se menciona a missão eclesial fora das fronteiras do judaísmo ortodoxo (4,34-42); na multiplicação dos pães; no caminhar sobre as águas, etc. Enquanto que na segunda parte (13,1–12,50), denominada - livro da exaltação, cujo escopo é mostrar o cumprimento da obra do Mestre, contendo ensinamentos para os discípulos, estes, pelo menos algumas vezes são qualificados como homens lentos para compreender e, por isso, creem de maneira insuficiente (cf. 14,4-11). Mas devemos ter presente que os discípulos são os crentes, isto é aqueles que Jesus atraiu a si mediante sua palavra e seus sinais. Assim, o leitor vai adentrando na leitura do quarto evangelho apreendendo o seu escopo que é fazer com que todos creiam que Jesus é o Filho de Deus. A fé vai se aprimorando paulatinamente no decorrer da caminhada com o mestre. Desta forma, a missão dos discípulos é modelada pela obediência de fé que caracterizou toda a missão histórica de Jesus.

Pe. Ednaldo Virgílio da Cruz
Mestre em Teologia Bíblica e
Vice-reitor do Seminário de São Pedro

   

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