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Do túmulo vazio ao Getsêmani

O título do nosso artigo pode parecer curioso. Com efeito, o movimento normal das celebrações pascais vai do Getsêmani ao túmulo vazio, porque é mais fácil passar da figura à realidade, da promessa ao cumprimento, da preparação à realização e do sofrimento à vitória. Todavia, é possível justificar um movimento inverso.
Iniciemos nossa reflexão com o salmo 144(1), onde nos deparamos com um hino para a guerra e a vitória. Cuja primeira parte (vv. 1-11) está contida a abreviação de liturgia real, enquanto que a segunda (vv. 12-15) original, descreve a prosperidade messiânica. No v. 3 o salmista indaga Deus: Iahweh, que é o homem para que o conheças? A resposta vem imediata no v. 4: O homem é como um sopro, seus dias como a sombra que passa.
A partir desta indagação e da resposta obtida, podemos refletir melhor sobre a nossa condição humana, de ser mortal, mas em busca da imortalidade que teremos acesso através do Filho do homem – Jesus, caminho, verdade e vida (Jo 14,6a). Santo Agostinho em meio à realidade de turbulência existencial, afirma: "Meu coração está inquieto enquanto não repousar em Deus". O próprio Deus vai nos preparando para este encontro definitivo com Ele – a visão beatífica, através de sinais ou dos acontecimentos que o homem vai presenciando ou vivenciando no cotidiano desta realidade terrena. Desta forma, Deus falou através de um sinal para quatro trabalhadores de sua messe que foram colocar em prática o seu mandamento: "Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16,15) e também corroborando com o Concílio Vaticano II: "A Igreja peregrina é por sua natureza missionária, por conseguinte todos aqueles que fazem parte desta, tornam-se missionários" (AG 865). Com esta intenção dois sacerdotes e dois seminaristas a exemplo do Mestre que designou outros setenta e dois discípulos, e os enviou dois a dois (Lc 10,1) partiram da cidade do Natal - RN para a cidade de Senhor do Bonfim - BA com o objetivo de colaborar na evangelização durante a semana santa em algumas comunidades daquela diocese: Jacobina, Lages do Batata e Caatinga do Moura. Assim, eles iniciaram sua páscoa, se inculturaram nas respectivas comunidades, onde ali encontraram pessoas bem diversas, de um lado o erudito e do outro o rude, a tal ponto de confundir Jesus com um crustáceo: Ostra em vez de Hóstia. Mesmo o grupo sendo composto de sacerdotes diocesanos e seminaristas que também estão no processo formativo para serem sacerdotes diocesanos, dois integrantes (um sacerdote e um seminarista) do grupo habitaram num mosteiro ausente de monges, cuja ubicação estava por trás de uma das Igrejas, neste recinto ouvia-se apenas o canto dos passarinhos e o barulho do vento que soprava alguns momentos fortes outros mais fracos, gerando uma certa sinfonia. Este era o som que ressoava nos seus ouvidos do amanhecer ao anoitecer. Quando a noite chegava, diante da Igreja era possível contemplar apenas dois cenários, um celeste e outro terrestre: a lua cheia e um casal de jovens namorados que se encontrava para partilhar um dos elementos que é essencial na vida do homem – o amor. Como dizia a grande doutora da Igreja Santa Teresa d´Ávila: "Sem amor tudo é nada". Todavia, além desta realidade monacal foi possível ver e ser solidários com o outro lado da páscoa, isto é a paixão, através dos sacramentos da cura: Penitência e Unção dos enfermos. Encontraram tantos irmãos que já viveram sua páscoa, e que agora estão vivendo a paixão nos seus leitos, sobre uma cadeira de rodas e até mesmo no chão. Cada lar que foi visitado, cada pessoa que eles encontraram deram grandes exemplos de paciência, de força, de coragem para viver, mesmo em meio aquela realidade de purificação, algumas até gritantes. Contemplando todas aquelas realidades, inclusive algumas até desumanas, pois a exclusão também se fazia presente, pessoas que se encontravam isoladas do convívio social. Então eles indagaram a exemplo do salmista: Senhor que é o homem? (Sl 8,5)(2). Este que na sociedade hodierna, secularizada, Te coloca em segundo plano, vivendo esta independência da divindade. Como dizia o Papa Bento XVI, o então cardeal Ratzinger: "O maior problema da sociedade é o homem achar que não depende de Deus". Entretanto, reina desta forma o relativismo e o homem vai tornando-se por meio do livre-arbítrio cada vez mais autosuficiente almejando ocupar o lugar e chegar ao mesmo patamar da divindade através da ciência. Esta realidade que nos primórdios deu origem ao pecado (Gn 3) e o homem sofreu as devidas conseqüências. Contudo, sabemos que Deus é misericordioso e tem compaixão para com todos, por isso vai negociando com o homem; oferecendo-lhe oportunidades para que ele se converta e viva. Foi assim, que Deus teve compaixão dos seus quatro filhos que após terem realizado a missão na Bahia, regressavam à sua pátria – RN. Era o dia doze de março (domingo de páscoa). Felizes por terem cumprido o mandamento do Senhor, partilhando a exemplo dos doze apóstolos (Lc 9) não apenas as alegrias, mas as dificuldades encontradas no itinerário missionário seguiam na estrada contemplando os horizontes baianos, em seguida, o pernambucano. Mas como diz o provérbio: "Tudo o que é bom dura pouco". E assim, alguns instantes após terem cruzado a cidade de Orocó – PE, onde o dia (a luz) tinha declinado, a noite (trevas) começava a reinar, aparece a besta do apocalipse(3) no meio da estrada querendo atacar, cuja meta principal era acabar com a alegria e calar a voz daqueles que sempre caminham na lei do Senhor e recita sua lei dia e noite (Sl 1,2).
Porém foram surpreendidos com a voz de um anjo que gritou: olha o cavalo(4) . Ao ressoar esta voz no ouvido do motorista, foi possível evitar uma tragédia maior ao desviar o carro do referido animal. Podemos afirmar que o escopo da outra parte (mal) foi alcançado cinquenta por cento, pois aconteceu que ao desviar o carro bateu numa pedra e posteriormente capotou cinco vezes, provocando o inesperado - um acidente, que a priori viram-se diante da morte. Mas o próprio Deus agiu neste momento de trevas e operou um milagre. Era o domingo da ressurreição. O Pai acabara de ressuscitar seu Filho da mansão dos mortos para a vida nova, mostrando que a morte não tem poder sobre a vida, nem as trevas podem prevalecer diante da luz, muito menos o mal pode continuar a reinar ocupando o espaço do bem. A posteriori tornaram a viver, foram todos salvos. Porém, quando Deus fez a berît (aliança) com a raça judaica deixava um sinal marcado na carne (circuncisão), semelhante aconteceu com o grupo. Dentre os quatro, o Senhor escolheu e deixou marcado um sinal na carne de um para lembrá-los que o homem é dependente d´Ele. Um dos quatro ficou ferido gravemente, quebrou a clavícula e desta forma passou do túmulo vazio ao Getsêmani, assemelhando-se ao Mestre no sofrimento. O nosso Rabi não precisava sofrer, mas por amor a humanidade esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana, humilhou-se e foi obediente até a morte e morte de cruz (Fl 2,7-8). Entretanto, ao contrário do Mestre, o discípulo passa pelo sofrimento para purificar-se de suas faltas. Ao mesmo tempo em que realizou este sinal, o Senhor quis convidá-los a tirar uma lição para suas vidas, olhar para sua realidade exteriormente e interiormente. Fazendo uma hermenêutica da sua existência para dar uma guinada nas suas vidas rumo ao futuro. Um outro elemento significativo é que através deste fato foi lançado um convite à metanóia. Por isso, devemos recordar sempre que viver é aceitar cada dia como um milagre que não pode ser repetido. Além disto, a vida é como uma viagem no mar da história, com freqüência enevoada e tempestuosa. E jamais esquecer a cada amanhecer e a cada anoitecer as palavras do Senhor: O homem é como um sopro, seus dias como a sombra que passa. Oxalá, neste mundo, vivamos a realidade do Getsêmani para mergulharmos na realidade do túmulo vazio.

(1) Salmo litúrgico que celebra a providência de Deus sobre o ser humano e implora da onipotência divina a defesa contra os inimigos e a prosperidade da nação: bênção da família, das colheitas e do gado, e segurança.
(2) Sl 8: Hino de louvor a magnificência do Deus Criador e a dignidade do ser humano, da qual deriva o sentido e o valor de sua atividade. No silêncio da noite, o salmista contempla as maravilhas do céu estrelado, cujo esplendor enche de admiração almas inocentes, e de confusão homens agnósticos. Por ser imagem e semelhança de deus, o ser humano se situa acima das outras criaturas do universo e é chamado a participar do domínio de Deus sobre toda a criação.
(3) Ap 13,11-18 (a besta é representada pelo número 666). Esta cifra é um número de homem. A interpretação que com razão apresenta maior número de partidários é aquela que procura interpretar a cifra como alusão a um imperador concreto da época em que João escreve. Por isso, parte do dado de que, para interpretar a cifra, é preciso valer-se de um procedimento corrente na época denominado gematria. A gematria parte da equivalência numérica que tem cada uma das letras do alfabeto grego ou hebraico. Tratar-se-ia, portanto, de encontrar o nome de um imperador, cuja soma das letras tivesse como resultado o número 666. Nesta suposição, a interpretação mais amplamente aceita é aquela que sustenta que o número 666 se refere ao imperador Domiciano.
(4) Ap 6,1–8,1 forma um conjunto, onde o autor apresenta os sete selos. João, nesta parte, nos dá uma visão e uma interpretação profética e apocalíptica da história, ou seja, nos revela o sentido oculto da história, o sentido do que se passa na terra, levando em conta o que se passa no céu. Faz uma análise de conjuntura com o método apocalíptico, levando em conta não somente as realidades empíricas, mas também as realidades espirituais, presentes e atuantes na mesma história. Esta revelação se faz abrindo os selos. Cada selo que se abre nos revela um aspecto da história. É Jesus mesmo que vai abrindo os selos. Os quatro cavalos com os quatro cavaleiros representam quatro dimensões do império Romano. O quarto cavalo é esverdeado – símbolo da morte – realidade global do império.

Pe. Ednaldo Virgílio da Cruz
Mestre em Teologia Bíblica e
Vice-reitor do Seminário de São Pedro

   

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