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Páscoa cristã: celebração não do mito, mas da plena revelação divina.

Na teologia contemporânea se tornou comum se fazer referência à palavra mito tendo em vista não a uma conotação helênica clássica cujo significado será utilizado e re-significado por um teólogo protestante hodierno chamado Rudolf Bultman que segundo a categoria paradigmática fará uma desmitolização do evento pascal cristão. Com o pressuposto logicamente luterano que é a proeminência da fé e uma base filosófica heideggeriana, que concebe a manifestação do ser como algo dado primeiramente na consciência, o autor fará a exegese do evento da ressurreição como uma experiência das primeiras comunidades cristãs que, pela fé, concebem que Cristo ressuscitou como um dado subjetivamente presente.
Antes de tudo convém identificar, em seus fundamentos, a diferença que existe entre a concepção grega e a judaica em suas acepções no tocante ao modo de se predicar e o local de acontecer a manifestação dos seus deuses e Deus. Um teólogo da atualidade que sinteticamente pode ajudar a entender os dois lados da moeda é W. Pannenberg, que explica justamente como conquista da experiência bíblica ou efetividade histórica, na modernidade perante à grega: “na compreensão grega de deus não há lugar para o pensamento de uma revelação de deus. Como origem eterna e sempre igual de uma ordem do ser eterno e sempre igual, deus é absolutamente simples, incognoscível, sem propriedades e incapaz de fazer nada. Mas com isso se faz também inconcebível o pensamento de um voltar-se deus para o homem. Uma revelação de Deus só tem sentido ali onde é pensado como origem livre do mundo, ou, o que dá no mesmo, ali onde a realidade por ele produzida não é compreendida no sentido de um cosmos imutável, mas como história, como um processo em que continuamente acontece algo novo e onde, portanto, o homem deve estar continuamente à espera do improvável e mesmo do incrível” (Cf. in Andrés Torres Queiruga. A revelação de Deus na realização humana. Pág. 201). Esta abreviação é clarificativa a fim de que o horizonte visado para a aceitação fiel do Mistério pascal possa ser acolhido não como uma invenção humana que responde ilusoriamente às indagações significantes do homem e do mundo.
O teólogo Joseph Ratzinger diz que a Páscoa é apresentada em excesso exclusivamente como a festa da lembrança da ressurreição histórica do Senhor. Isso corresponde, diz ele, a uma Cristologia demasiadamente retrospectiva que põe a Cristo muito no passado, ignorando sua presença. Precisamente porque lembra a Ressurreição historicamente real de Jesus, a Páscoa originalmente é, ao mesmo tempo, uma festa do Batismo, tornando assim presente a vitória da Ressurreição de Jesus Cristo (Cf. Dogma e Anúncio, 50).
No Magistério católico, a leitura orgânica da intrínseca plenitude da revelação é algo sempre sublinhado como um acontecimento prevalentemente histórico: “depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos profetas, falou-nos Deus ultimamente, nestes nossos dias, por meio de seu filho (Hb 1,1-2). Enviou o seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e explicar-lhes os segredos de Deus (Cf. Jo 1,1-18). Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado ‘como homem aos homens’, ‘fala’ portanto ‘as palavras de Deus’ (Jo 3,34) e consuma a obra de salvação que o Pai lhe mandou realizar (Cf. Jo 5,36; 17,4)” (DV cap. I, 4). Com o evento da encarnação vem concomitantemente o pascal, ou seja, a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, que por ser um evento reconhecidamente divino por aqueles que têm Fé, passa a ser acolhido conjuntamente como um acontecimento que, no tempo de Deus e no coração do homem, é a Verdade histórica por excelência.
Fazendo a leitura destes acontecimentos salvíficos, pré e pós pascal, nós aceitamos, como os primeiros cristãos, que Cristo ressuscitou e foi visto por todos que pelas virtudes da Fé, Esperança e Caridade (Cf. 1 Cor. 13,13) e animados pelo Espírito (Cf. At. 2,1-2) afirmamos que: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas, e depois aos Doze (Cf. 1 Cor. 15,3-5).


Pe. Matias Soares
Administrador da Paróquia de São Francisco de Assis
Lagoa de Pedras -RN

   

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