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A
terceira aparição de Jesus depois da Ressurreição
O
capítulo 21 do Evangelho segundo João é um
epílogo acrescentado posteriormente pelo próprio evangelista
ou por um de seus discípulos. O texto deve ter surgido como
resposta a alguns problemas, como a crise de identidade da comunidade
em plena missão, bem como o desejo de mostrar o resgate de
Pedro – “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei
minha Igreja, e as portas do Inferno, nunca prevalecerão
contra ela”(Mt 16,18) – acontecendo assim o encontro
dele com sua identidade.
Mas como superar a crise de identidade? O contexto desse trecho
- Jo 21 – é eucarístico, mas é também
o da missão da comunidade. Começa-se situando a cena
e a forma como Jesus se manifestou às margens do mar de Tiberíades(1).
Estavam juntos alguns de seus seguidores, entre eles Pedro e Tomé.
Então Simão Pedro diz: “Vou Pescar” (Jo
21,3). Os outros que se encontravam com ele foram juntos, e naquela
noite nada tinham pescado. Sendo que ao amanhecer uma pessoa fala
a beira da praia mandando que eles jogassem a rede ao lado direito
do barco, lançaram e quando se depararam com a quantidade
de peixes caíram na real de que o jovem a beira da praia
era o mestre, o Senhor.
Amigo leitor, estamos diante do cenário em que o Senhor se
manifestou, que é o mar de Tiberíades. Com essa informação,
entra-se já no ambiente de ação da comunidade.
De fato, Tiberíades era uma cidade construída em honra
do imperador Tibério. O fato de João chamar o lago
de “mar de Tiberíades” e não “mar
da Galiléia” pode ser intencional, demonstrando com
isso que a comunidade, ou seja, os discípulos estavam em
plena atividade missionária, simbolicamente apresentada numa
pescaria, no meio dos gentios que são representados pelo
lago(2). O fato da ação da pescaria poder ser lido
simbolicamente, por um lado, pode representar as fugas das comunidades
que não possui perspectivas claras, ou como apresento acima,
o desenvolvimento da ação missionária dos discípulos
em meio aos povos gentios. O certo é que a pesca sempre tem
nos escritos evangélicos o sentido messiânico e escatológico.
Tendo em mente a segunda hipótese de interpretação,
podemos ver que naquela noite os missionários: Pedro, Tomé,
Natanael, Tiago e João os filhos de Zebedeu e dois outros
discípulos tiveram uma noite de ação missionária
infrutífera, pois não tinham pescado nada até
ao amanhecer do dia. Fica aí bem clara a crise da comunidade.
A noite é vista como um momento escuro, onde os discípulos
talvez estivessem agindo sem estarem muito em sintonia com o Senhor,
que é a luz do mundo, daí que só ao amanhecer
do dia, com a presença da luz que é o próprio
Mestre e Senhor ressuscitado, os discípulos conseguem obter
resultados positivos, alcançando êxito na pescaria
trazendo à margem do mar inúmeros peixes ao encontro
do Senhor. Daí a necessidade de ouvirmos a voz do Senhor
Ressuscitado, de depositarmos as nossas esperanças Nele que
é a luz do mundo, que mesmo em meio a escuridão não
nos perderemos, pois ele nos guia e nos conduz a uma boa pescaria
e em seguida alimenta-se conosco do fruto do trabalho.
Percebemos que a Palavra de Jesus ressuscitado muda toda a situação.
Pois ao lançarem a rede ao lado direito apanham uma grande
quantidade de peixes. Daí fazendo-se uma escolha, uma opção
por esta multidão, a comunidade se torna próspera,
fecunda e frutífera. Percebendo isso, somos capazes de fazer
uma opção preferencial por Jesus e pela multidão
– aqui com sentido largo – conseguimos observar a partir
da nossa entrega com amor a missão de quem dá a ordem:
É o Senhor”(Jo 21,7a).
É no amor que se encontra a nossa resposta e mais ainda é
por amor aos discípulos que Jesus prepara “brasas acesas,
peixe e pão”(Jo 21,9) sinalizando a cada um de nós
o seu amor. Mas além de preparar esta recepção
ele pede conta do fruto do trabalho de Pedro e seus companheiros(Jo
21,10) e assim será com cada um dos seus discípulos
posteriores para estabelecer comunhão entre Deus e as pessoas.
Assim é conosco! Jesus toma a iniciativa e convida a comunidade,
ao banquete, a refeição, à Eucaristia: “Venham
Comer”(Jo 21,12a).
Na cena entre os versículos de 1-14 não há
menção a Pedro como merecedor de uma atenção
especial por parte de Jesus. Mas já nos versículos
15ss ele, Pedro, é o centro da atenção de Jesus.
As condições para seguir a Jesus se tornam evidentes
na tríplice pergunta dirigida a Pedro: Simão, Filho
de João, você me ama mais do que estes?”, na
tríplice resposta e na confirmação da tarefa,
na missão tudo fica mais transparente. Nesta cena o que Jesus
pede é o amor incondicional de Pedro e consequentemente de
cada um de nós que somos incorporados a Igreja Corpo Místico
de Jesus Cristo. Concretamente, esse amor vai se efetuar na ação
de Pedro que prolonga a ação de Jesus, pastor e porta.
O discípulo entra na porta que é Jesus(Jo 10,9) para
de lá conduzir as ovelhas, levando-as a possuir a vida de
Jesus(Jo 10,10). Esse projeto assumido pelo discípulo levara
a cada um ao extremo, dar a própria vida, como fez Jesus.
Contudo a vocação do discípulo é a de
seguir Jesus: “Eu sou o caminho”(Jo 14,6). Somos chamados
como Pedro a apascentar o rebanho que Jesus nos confia. Que a tríplice
resposta de Pedro ao Senhor, afirmando amá-lo, seja a nossa
resposta ao projeto de Deus desejado para cada um de nós.
E que no fim de tudo possamos fazer como o evangelista João,
eu creio e dou testemunho e o meu testemunho é verdadeiro
pois estou unido ao único Mestre e Senhor da verdade. Amém.
1.BARTOLINI, Pe. José.
Roteiros Homiléticos. São Paulo:
Paulus, ed. 3, p. 555, 2007.
2.Idem.
Seminarista Leilson Leandro
da Silva
Aluno do 4° ano do Curso de Teologia
Seminário de São Pedro - Natal-RN |