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Venerados
irmãos no episcopado e no sacerdócio, queridos
irmãos e irmãs!
Por ocasião do próximo
Dia Mundial de Oração pelas Vocações
ao sacerdócio e à vida consagrada, que será
celebrado no IV Domingo de Páscoa, dia 3 de Maio
de 2009, desejo convidar todo o Povo de Deus a refletir
sobre o tema: A confiança na iniciativa de Deus e
a resposta humana. Não cessa de ressoar na Igreja
esta exortação de Jesus aos seus discípulos:
«Rogai ao Senhor da messe que envie trabalhadores
para a sua messe» (Mt 9, 38). Pedi! O premente apelo
do Senhor põe em evidência que a oração
pelas vocações deve ser contínua e
confiante. De facto, só animada pela oração
é que a comunidade cristã pode realmente «ter
maior fé e esperança na iniciativa divina»
(Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis, 26).
A vocação ao
sacerdócio e à vida consagrada constitui um
dom divino especial, que se insere no vasto projecto de
amor e salvação que Deus tem para cada pessoa
e para a humanidade inteira. O apóstolo Paulo –
que recordamos de modo particular durante este Ano Paulino
comemorativo dos dois mil anos do seu nascimento –,
ao escrever aos Efésios, afirma: «Bendito seja
o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, do alto
dos céus, nos abençoou com toda a espécie
de bênçãos espirituais em Cristo. Foi
assim que n’Ele nos escolheu antes da constituição
do mundo, para sermos santos e imaculados diante dos seus
olhos» (Ef 1, 3-4). Dentro da vocação
universal à santidade, sobressai a peculiar iniciativa
de Deus ter escolhido alguns para seguirem mais de perto
o seu Filho Jesus Cristo tornando-se seus ministros e testemunhas
privilegiadas. O divino Mestre chamou pessoalmente os Apóstolos
«para andarem com Ele e para os enviar a pregar, com
o poder de expulsar demónios» (Mc 3, 14-15);
eles, por sua vez, agregaram a si mesmos outros discípulos,
fiéis colaboradores no ministério missionário.
E assim no decorrer dos séculos, respondendo à
vocação do Senhor e dóceis à
acção do Espírito Santo, fileiras inumeráveis
de presbíteros e pessoas consagradas puseram-se ao
serviço total do Evangelho na Igreja. Dêmos
graças ao Senhor, que continua hoje também
a convocar trabalhadores para a sua vinha. Se é verdade
que, em algumas regiões, se regista uma preocupante
carência de presbíteros e que não faltam
dificuldades e obstáculos no caminho da Igreja, sustenta-nos
a certeza inabalável de que esta é guiada
firmemente nas sendas do tempo rumo à realização
definitiva do Reino por Ele, o Senhor, que livremente escolhe
e convida a segui-Lo pessoas de qualquer cultura e idade,
segundo os insondáveis desígnios do seu amor
misericordioso.
Por conseguinte o nosso primeiro
dever é manter viva, através de uma oração
incessante, esta invocação da iniciativa divina
nas famílias e nas paróquias, nos movimentos
e nas associações empenhados no apostolado,
nas comunidades religiosas e em todas as articulações
da vida diocesana. Devemos rezar para que todo o povo cristão
cresça na confiança em Deus, sabendo que o
«Senhor da messe» não cessa de pedir
a alguns que livremente disponibilizem a sua existência
para colaborar mais intimamente com Ele na obra da salvação.
Entretanto, por parte daqueles que são chamados,
exige-se-lhes escuta atenta e prudente discernimento, generosa
e pronta adesão ao projeto divino, sério aprofundamento
do que é próprio da vocação
sacerdotal e religiosa para lhe corresponder de modo responsável
e convicto. A propósito, o Catecismo da Igreja Católica
recorda que a livre iniciativa de Deus requer a resposta
livre do ser humano. Uma resposta positiva que sempre pressupõe
a aceitação e partilha do projeto que Deus
tem para cada um; uma resposta que acolhe a iniciativa amorosa
do Senhor e se torna, para quem é chamado, exigência
moral vinculativa, homenagem de gratidão a Deus e
cooperação total no plano que Ele prossegue
na história (cf. n. 2062).
Ao contemplar o mistério
eucarístico – onde se exprime sumamente o dom
concedido livremente pelo Pai na Pessoa do Filho Unigénito
pela salvação dos homens, e a disponibilidade
plena e dócil de Cristo para beber completamente
o «cálice» da vontade de Deus (cf. Mt
26, 39) – compreendemos melhor como «a confiança
na iniciativa de Deus» molde e dê valor à
«resposta humana». Na Eucaristia, dom perfeito
que realiza o amoroso projecto da redenção
do mundo, Jesus imola-Se livremente pela salvação
da humanidade. «A Igreja – escreveu o meu amado
predecessor João Paulo II – recebeu a Eucaristia
de Cristo seu Senhor, não como um dom, embora precioso,
entre muitos outros, mas como o dom por excelência,
porque dom d’Ele mesmo, da sua Pessoa na humanidade
sagrada, e também da sua obra de salvação»
(Carta enc. Ecclesia de Eucharistia, 11).
Quem está destinado
a perpetuar este mistério salvífico ao longo
dos séculos, até ao regresso glorioso do Senhor,
são os presbíteros, que podem precisamente
contemplar em Cristo eucarístico o modelo exímio
de um «diálogo vocacional» entre a livre
iniciativa do Pai e a resposta confiante de Cristo. Na celebração
eucarística, é o próprio Cristo que
age naqueles que Ele escolhe como seus ministros; sustenta-os
para que a sua resposta cresça numa dimensão
de confiança e de gratidão que dissipe todo
o medo, mesmo quando se faz mais intensa a experiência
da própria fraqueza (cf. Rm 8, 26-30), ou o ambiente
se torna mais hirto de incompreensão ou até
de perseguição (cf. Rm 8, 35-39).
A consciência de sermos
salvos pelo amor de Cristo, que cada Eucaristia alimenta
nos crentes e de modo especial nos sacerdotes, não
pode deixar de suscitar neles um confiante abandono a Cristo
que deu a vida por nós. Deste modo, acreditar no
Senhor e aceitar o seu dom leva a entregar-se a Ele com
ânimo agradecido aderindo ao seu projeto salvífico.
Se tal acontecer, o «vocacionado» de bom grado
abandona tudo e entra na escola do divino Mestre; inicia-se
então um fecundo diálogo entre Deus e a pessoa,
um misterioso encontro entre o amor do Senhor que chama
e a liberdade do ser humano que Lhe responde no amor, sentindo
ressoar no seu espírito as palavras de Jesus: «Não
fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi
e vos nomeei para irdes e dardes fruto, e o vosso fruto
permanecer» (Jo 15, 16).
Este amoroso enlace entre
a iniciativa divina e a resposta humana está presente
também, de forma admirável, na vocação
à vida consagrada. Recorda o Concílio Vaticano
II: «Os conselhos evangélicos de castidade
consagrada a Deus, de pobreza e de obediência, visto
que fundados sobre a palavra e o exemplo de Cristo e recomendados
pelos Apóstolos, pelos Padres, Doutores e Pastores
da Igreja, são um dom divino, que a mesma Igreja
recebeu do seu Senhor e com a sua graça sempre conserva»
(Const. dogm. Lumen gentium, 43). Temos de novo aqui Jesus
como o modelo exemplar de total e confiante adesão
à vontade do Pai para onde deve olhar a pessoa consagrada.
Atraídos por Ele muitos homens e mulheres, desde
os primeiros séculos do cristianismo, abandonaram
a família, os haveres, as riquezas materiais e tudo
aquilo que humanamente é desejável, para seguir
generosamente a Cristo e viver sem reservas o seu Evangelho,
que se tornou para eles escola de radical santidade. Ainda
hoje são muitos os que percorrem este itinerário
exigente de perfeição evangélica, e
realizam a sua vocação na profissão
dos conselhos evangélicos. O testemunho destes nossos
irmãos e irmãs, tanto nos mosteiros de vida
contemplativa como nos institutos e nas congregações
de vida apostólica, recorda ao povo de Deus «aquele
mistério do Reino de Deus que já actua na
história, mas aguarda a sua plena realização
nos céus» (Exort. ap. pós-sinodal Vita
consecrata, 1).
Quem pode considerar-se digno
de ingressar no ministério sacerdotal? Quem pode
abraçar a vida consagrada contando apenas com os
seus recursos humanos? Mais uma vez convém reafirmar
que a resposta da pessoa à vocação
divina – sempre que se esteja consciente de que é
Deus a tomar a iniciativa e é Ele também a
levar a bom termo o seu projecto salvífico –
não se reveste jamais do cálculo medroso do
servo preguiçoso, que por medo escondeu na terra
o talento que lhe fora confiado (cf. Mt 25, 14-30), mas
exprime-se numa pronta adesão ao convite do Senhor,
como fez Pedro quando, apesar de ter trabalhado toda a noite
sem nada apanhar, não hesitou em lançar novamente
as redes confiando na palavra d’Ele (cf. Lc 5, 5).
Sem abdicar de forma alguma da responsabilidade pessoal,
a resposta livre do homem a Deus torna-se assim «corresponsabilidade»,
responsabilidade em e com Cristo, em virtude da acção
do seu Santo Espírito; faz-se comunhão com
Aquele que nos torna capazes de dar muito fruto (cf. Jo
15, 5).
Emblemática resposta
humana, repleta de confiança na iniciativa de Deus,
é o «Amen» generoso e total da Virgem
de Nazaré, pronunciado com humilde e decidida adesão
aos desígnios do Altíssimo, que lhe foram
comunicados pelo mensageiro celeste (cf. Lc 1, 38). O seu
«sim» pronto permitiu-Lhe tornar-Se a Mãe
de Deus, a Mãe do nosso Salvador. Maria, depois deste
primeiro «fiat», teve de o repetir muitas outras
vezes até ao momento culminante da crucifixão
de Jesus, quando «estava junto à cruz»,
como refere o evangelista João, compartilhando o
sofrimento atroz do seu Filho inocente. E foi precisamente
da cruz que Jesus agonizante no-La deu como Mãe e
a Ela nos entregou como filhos (cf. Jo 19, 26-27) –
Mãe especialmente dos sacerdotes e das pessoas consagradas.
A Ela quero confiar todos quantos sentem o chamamento de
Deus para caminhar pela senda do sacerdócio ministerial
ou da vida consagrada.
Queridos amigos, não
desanimeis perante as dificuldades e as dúvidas;
confiai em Deus e segui fielmente Jesus e sereis as testemunhas
da alegria que brota da união íntima com Ele.
À imitação da Virgem Maria, que as
gerações proclamam bem-aventurada porque acreditou
(cf. Lc 1, 48), empenhai-vos com toda a energia espiritual
na realização do projecto salvífico
do Pai celeste, cultivando no vosso coração,
como Ela, a capacidade de maravilhar-se e adorar Aquele
que tem o poder de fazer «grandes coisas», porque
Santo é o seu nome (cf. Lc 1, 49).
Vaticano, 20 de Janeiro
de 2009.
BENEDICTUS PP. XVI
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